25 Janeiro 2010

O Verdadeiro Amor

Há uma convicção em amar ardentemente aquele que é legitimamente seu, especialmente se voce esperou por anos e especialmente se parte de voce nunca acreditou que poderia merecer essa amada mão que acena de volta.

Eu estou pensando agora na confiança e nos testamentos de solidão e no que nos achamos dignos nesse mundo.

Anos atrás nas Ilhas Hébridas, eu me lembro de um velho homem que caminhava todas as manhãs nas pedras cinzas até a borda da baia das focas,

ele colocaria seu chapéu em seu peito no barulhento vento salgado e diria suas preces para o turbulento Jesus escondido na agua,

e eu penso na história da tempestade em que todos acordaram e viram uma figura distante, porém familiar, muito além da aguá, chamando por eles,

e como nós estamos nos preparando para aquele subito acordar, e aquele chamado, e aquele momento em que temos que dizer sim, com a exceção que ele não virá tào grandioso, tão biblico, mas mais sutil e intimo na face daquele que voce sabe que deve amar,

só então é que nós finalmente pisamos fora do barco em direção a ele, e notamos que tudo nos sustenta, e tudo confirma a nossa coragem, e se voce quisesse se afogar voce poderia, mas voce não quer

porque finalmente, depois de todo esse esforço e todos esses anos, voce não quer mais, voce já enjoou de se afogar, e voce quer viver e voce quer amar e voce vai andar através de qualquer territorio e qualquer escuridão, por mais que seja liquido e por mais que seja perigoso, para segurar a unica mão que voce sabe pertencer a voce.

- David Whythe

(Tradução por mim mesma)

08 Janeiro 2010

Para uma avó partindo

Os passos hesitantes ecoavam pelo velho assoalho de madeira, há muito não percorria aqueles corredores. Lembrava-se de como fora sua infancia toda passada ali, e viu o reflexo de si mesmo vinte anos atrás, correndo por aquela velha porta, pés descalsos e calção sujo, vinha atraido pelo cheiro de bolo quentinho e café com leite.
Mais alguns passos ruidosos e enxergou-se, dessa vez, adolescente tentando chegar em silêncio até seu quarto mas sendo, cruelmente, sabotado pelo barulho da madeira do assoalho antigo.

Passou as mãos pelo corrimão da escada e deu mais uma olhada para o morbido atestado em suas mãos, sem ela a casa não tinha mais vida, não havia mais o cheiro de bolo fresco nem as broncas por chegar de madrugada. Não havia motivo para não vender a casa. As janelas pareciam saber, e já não deixavam a casa iluminada e arejada, dando espaço a uma estranha e funebre penumbra e os objetos jaziam dentro de caixotes: brinquedos, roupas e recordações, retratos de uma vida enfiados em frias caixas de papelão.

Tudo parecia sentir a falta dela, as jenalas fecharam, as plantas murcharam, os degraus da escada e, por alguma estranha razão, nem o assoalho faziam mais o mesmo barulho.


PS - minha avó não morreu, esse texto é fictício ;)

06 Janeiro 2010

UM CONTO DE AMOR NA FARMÁCIA - Parte Final

A voz do outro lado da linha não parecia com a de nenhum conhecido. Ao ouvir aquele nome, seus dedos amoleceram. Sair no domingo parecia perfeito. Claro que queria. Pra qualquer lugar. Largou o telefone e deitou na cama abraçando o travesseiro. Já era tarde e precisava dormir.

Andava pelo quarto, nervosamente, parando, de tempo em tempo, em frente ao espelho. “Não, tá horrível essa blusa”, dizia, atirando mais uma camiseta à pequena pilha de roupas que já se acumulava fora do armário. Decidiu-se por um jeans e uma regata listrada, sua favorita, arrumou o cabelo e perfumou-se. Pegou as chaves em cima do criado-mudo e saiu.
Enquanto dirigia o carro até a frente da farmácia - combinara de buscá-la na saída do trabalho -, pensava no que falaria. Nunca fora boa em encontros e não era extrovertida. Tinha medo de a outra achar tudo muito chato e nunca mais olhar em sua cara.

O dia não passava, nunca trabalhara um domingo que demorasse tanto pra passar. A cada dois minutos olhava no relógio e a ansiedade aumentava. Tiago a olhava toda hora e soltava risinhos cúmplices.

Encostou o carro em frente a farmácia e esperou.

Finalmente chegara a hora, correu para o vestiario e tirou o uniforme, e arrumou-se, aquele momento tão corriqueiro, hoje tornara-se especial, pois trouxera perfume, roupas diferentes e tudo que precisava para ficar apresentavel. Desceu correndo.

Viu Mariana sair do predio, estava linda. De repente não mais lembrava-se de onde saira toda a coragem que tivera antes, quando perguntou por ela, e mandou-lhe o bilhete e, por um segundo, quis que ela não a visse.

Enxergou Alice dentro do carro e caminhou até lá. Nunca o espaço entre um lado e o outro da rua fora tão longo, o que falaria pra ela? O que fariam? Todas as suas dúvidas cessaram quando a viu descer do carro e esperar em pé por um longo e apertado abraço.

04 Janeiro 2010

UM CONTO DE AMOR NA FARMÁCIA - Parte II

15 dias depois...

“Mas doutor, eu não consigo dormir. Todos esses remédios que você me passa, nenhum faz efeito!” Alice reclamava com seu psiquiatra mais uma vez. Os novos medicamentos não conseguiram o resultado esperado. Saiu do consultório com mais uma receita, “esse vai resolver, esse vai resolver, é sempre isso que ele diz!”, andava em direção à mesma farmácia de sempre.

De repente, o despertador tocou, e foi acertado em cheio pela mão pesada de uma Mariana sonolenta. Não fora à faculdade aquele dia, era feriado. Mas, como o comércio nunca para, precisava levantar e se arrumar para o trabalho. Saiu da cama em direção ao chuveiro apalpando as paredes, mal conseguia abrir os olhos.

Entrou na farmácia do mesmo modo de sempre. Foi direto ao balcão. Um rapaz veio ao seu encontro, pegou a receita e começou a procurar os medicamentos. “Ué, cade ela?” pensou. Ele, debruçado no balcão, preenchia os dados obrigatórios para controlados. Em um momento de puro impulso, perguntou-lhe, “Viu, a Mariana não trabalha mais aqui?”. Seu coração batia acelerado, como tivera essa coragem? De repente, não sabia mais pra onde olhar, mirou o balcão. Agora já estava feito. “Trabalha sim, mas ela só entra depois do almoço”.

Adorava banho frio mas, naquele dia, optou pela água quente. O tempo não estava lá essas coisas. Voltou pro quarto enrolada na toalha e secou os cabelos, procurou uma roupa, maquiou-se, juntou suas coisas e saiu.

“Vai! Agora que já começou, termina”, olhava ainda para o balcão. O rapaz não falara mais nada depois de responder a sua primeira pergunta, arriscou, então, “você sabe se ela tem orkut?”. Ele continuava preenchendo o papel e não a olhava nos olhos. Somente respondia, “tem sim, mas eu não sei como está o nome dela lá”. Parou por um minuto o que estava fazendo e pegou um papelzinho, “você não quer anotar o seu e eu entrego a ela?”. Continuou, entregando-lhe o rascunho. Alice segurou o papel, “o que eu tenho a perder?”, pensou, puxou uma caneta e anotou o endereço de sua rede social, entregou ao menino, pegou seus medicamentos, pagou e foi embora.

Não teve tempo nem de entrar direito e Tiago já a puxou pelo braço dizendo que tinha duas coisas muito importantes pra falar. Trancaram-se na sala de injeção. Parecia transtornado e começou a falar que a gerente havia descoberto da aplicação que ela havia feito na farmacêutica, sua colega de trabalho, no dia anterior e que ambos levariam bronca. Ela, por ter aplicado sem ter o curso, e o outro por ser o responsável na loja no momento do ‘crime’. Assustada com a primeira noticia, Mariana nem queria saber o que mais ele tinha para falar, e já fazia menção a sair da sala, sendo imediatamente impedida. Ele estendeu-lhe, então, o rascunho que alguém havia pedido que entregasse.

Sentada em frente à TV, pensava sobre o que tinha feito. “Certeza que ela vai achar que sou louca”, trocou de canal, não que estivesse prestando atenção no que passava, simplesmente gostava de ficar pulando os canais e assistindo um pedaço de cada programa. “O que eu estava pensando?”

Reconheceu o nome na hora, mas correu para as receitas controladas para confirmar. Era ela, Alice, a própria. Não acreditava que lhe mandara mesmo aquele bilhete. Um sorriso tomou o rosto de Mariana enquanto guardava, no bolso do jaleco, seu mais novo tesouro e voltava ao trabalho. Mais tarde iria a um cyber café enviar uma mensagem.

Tomou coragem e abriu a pagina do orkut, “duvido que ela tenha adicionado. Aposto que jogou o papel no lixo”. Já haviam se passado dois dias, e não havia olhado o correio de mensagens ainda. Abriu. Não podia acreditar, estava lá, era uma mensagem dela e com um numero de celular. Um frio repentino tomou conta de seu estomago, como ligar e convida-la?

03 Janeiro 2010

UM CONTO DE AMOR NA FARMÁCIA - Parte I

Alice saiu de casa naquela manhã, "Atrasada de novo!", pensava enquanto corria em direção ao ponto, segurando a alça da bolsa que insistia em pular do ombro. O máximo que suas pernas aguentaram não foi o suficiente aquele dia, "que droga, hoje não!", pensava parada na esquina observando o ônibus que já ia virando lá no fim da rua. Os quarenta minutos seguintes pareciam demorar o dobro “será que não vai passar ônibus? Justo hoje!”, impaciente, batia o pé chão, andava até a beira da calçada e esticava o pescoço tentando ver o inicio da rua, sentava-se no ponto, levantava, simplesmente não conseguia ficar quieta “e esse ônibus que não chega”, olhava mais uma vez o relógio. “Finalmente”, a cabeça fervilhava quando pagou o cobrador e procurou um lugar para viajar “mas que droga, nunca tem onde sentar!”.

A caneta girando entre os dedos de Mariana indicava que, mesmo tendo estudado na noite anterior, ainda faltava a certeza que saberia responder à prova. Bioquímica nunca fora seu forte. Encarava o teste a sua frente e como se quisesse que as respostas aparecessem nele magicamente. Respondeu, da melhor maneira possível, todas as questões. Restava agora esperar o resultado que seria divulgado na semana seguinte. Saiu da sala carregando sua mochila pesada. Sempre que a pegava, pensava que devia retirar um pouco de peso dela, mas sempre achava tudo que havia lá tão essencial que nada saia, nunca.

Saltou do ônibus em frente ao MASP, caminhava a passos rápidos “não posso perder essa consulta”, atravessou uma rua correndo antes que abrisse o sinal, andou mais alguns metros e parou diante de um prédio de três andares, apertou a campainha “Oi, eu tenho uma consulta com o Dr. Ronaldo” a porta eletrônica abriu.

O uniforme cheirava a amaciante. Vestida com ele, Mariana sentia-se feliz por, no dia anterior, ter colocado uma medida a mais na máquina de lavar. A farmácia estava lotada, como era de costume nessa época do mês, pessoas dos mais variados tipos falavam o tempo todo e exigiam sua atenção. Com a caneta na mão, tentava interpretar uma receita indecifrável e corria a loja em busca da ajuda do colega, ao mesmo tempo em que procurava um medicamento para o cliente na prateleira e respondia a outro qual era o preço do leite em pó.

Já não era a primeira vez que Alice vinha àquele lugar, “tudo por causa do escritório, se eu não precisasse tanto da grana, largava tudo”. As consultas com o psiquiatra tornaram-se parte de sua vida, mesmo de licença do trabalho não sentia-se bem, não dormia e trocava de medicamentos mais do que trocava de roupa, tentando adaptar-se a um deles. Saiu do consultório, como já era de se esperar, com uma receita nova em mãos.

Estava no caixa quando ela entrou, já era a terceira (ou a quarta) vez que Mariana a via entrar na farmácia, sempre com aquele jeito de menina tímida. Aproximava-se lentamente do balcão. Correu pra lá, queria atendê-la. Ignorou dois clientes e pegou, sorrindo, a receita de suas mãos. “Mais um controlado. Alice, o nome dela é Alice. Que nome lindo!”, pensava enquanto procurava, no estoque, os remédios, imaginando como puxar assunto com alguém que nem a olhava nos olhos.

Entrou na mesma farmácia de sempre “só aqui que aceita meu convênio”. Por algum motivo, sempre que entrava em alguma loja, sentia uma certa vergonha, não gostava da sensação de ser observada que essa situação lhe causava. Foi direto para o balcão. E a atendente, sorrindo, foi buscar seus remédios. “Sempre é ela quem me atende. Ela é tão linda”, sem comentar nada, preencheu os dados da receita controlada, pagou e saiu. “O nome dela é Mariana”, lembrava-se de ter lido o crachá.

Com a receita preenchida em mãos, a ponto de colocar junto com as outras controladas do dia, leu todos os dados ali listados mais uma vez e, novamente, não encontrou o que queria, “porque ela sempre escreve o telefone fixo e não o celular?”, guardou o papel junto dos outros e voltou ao trabalho.

21 Dezembro 2009

Alien(Nado)

Minhas corneas cegas pelo comum
ignoram o extraordinário
meus ouvidos ensurdecidos do banal
não ouvem os gritos
abafados pela poeira do dia a dia

Algo em mim grita, implora pelo novo
Salta forte em meu peito
rasga a pele, os musculos, quebra os ossos
Inquieto, voa pra longe
deixando para trás um corpo inerte

Sem vontade própria, sem visão
não enxerga o absurdo em que está preso
sem distinguir o real do imaginário
Caminha, trabalha, estuda, convive
Diariamente.

14 Dezembro 2009

Saudosismo Colegial

Pela primeira vez em seis anos, cruzei novamente aqueles portões. Não sabia que ao faze-lo retomaria todos aqueles sentimentos que tive da primeira vez que o fiz. O pátio parecia maior, mas o cheiro continuava o mesmo, um cheiro peculiar de primeiro dia de aula. Me lembro como se fosse ontem, os grupos de adolescentes em rodinhas distribuídas por todo o espaço, o barulho resultante da mistura de todas as vozes em indecifráveis e intermináveis conversas que, pra quem ouve de fora, não fazem sentido algum.
Andei mais alguns passos e percebi que o prédio havia sofrido reformas, no chão, antes de concreto, agora era de piso frio branco, o que trás mais luminosidade para as salas de aula, não existe mais aquele clima sombrio que eu costumava sentir. As cores das paredes também mudaram, o laranja deu lugar a um azul-calcinha desbotado e a quadra de educação física agora é protegida por uma cerca, quão tristes devem ser esses alunos de hoje que não podem dar uma escapada durante o intervalo para jogar uma bolinha na quadra. O buraco no muro por onde fugíamos foi tapado e o banco de concreto sobre o qual passávamos horas conversando foi removido.
Foi estranho ver todas essas mudanças, antes, mesmo sem entrar naquela escola a seis anos, eu ainda me sentia parte dela. Mas depois de perceber que tudo mudou, me sinto mais distante daquilo tudo, daquela época boa, anos de amizade, risadas, preocupações com provas e em chegar atrasado na aula eram os meus maiores problemas. Como eu adorava tudo aquilo, como eu amei freqüentar aquela escola.
Disso tudo, só me sobrou a saudade e as memórias, todas ainda frescas, que voltaram assim que cruzei os portões naquela manhã.

12 Dezembro 2009

Dialogo by Itself

- Você não atendeu a minha ligação noite passada.
- Não, não atendi.
- Porque?
- Não havia nada a ser dito.
- Como assim não havia nada a ser dito, eu tenho tanta coisa pra te falar.
- ...
- Alô? Ainda está ai?
- Estou esperando voce começar a falar tudo isso que voce disse que queria.
- Voce não entende, eu amo voce!
- Ama? Mesmo? E nas horas em que voce transava com outras voce me amava? Durante os beijos que voce deu nelas? Nos momentos em que eu te ligava e voce atendia para me encher de mentiras? Voce tambem me amou?
- Clara... Eu....
- Nessas horas eu preferia que fosse voce quem não atendesse o telefone. O que mais há para ser dito? Alguma mentira nova?

TuTuTu...

11 Dezembro 2009

Qual é a cor do amor?

O amor me toca como nada pode tocar
como uma navalha de seda
acaricia delicadamente, lentamente
um minimo deslize, me corta, me machuca
mais do que qualquer coisa

Todo sentimento tem seu valor
qual é o do amor?
uma fina linha que separa dois estranhos
transformados em amantes
a tenue diferença entre prazer e dor.

Continuo vivendo sem saber
Qual é a cor do amor,
nem Cazuza sabia, existe uma cor?
Qual o sabor do amor?
Talvez seja parecido com Sazon.

19 Setembro 2009

Um Samba de Amor

"Sim, sim seu doutor
eu tenho certeza
Sim essa doença
só pode ser amor
Não tem como mentir
Tentar esconder, pra quê?
É esse o amor puro
que sinto,
só pode ser.
Amor perdido
a ti rendeu-se
Apaixonado assumido
Um amor desses que aquece
Amor sem causa e sem forma
Será mesmo?
Que todo amor começa assim?
Dessa forma insana.
como o nosso começou
e como a gente gostou.
Tudo isso na verdade
só foi pra dizer
que é amor
o que eu sinto,
só pode ser."